Agropalma vê alta de 20% na nova safra após El Niño de 2023, dependendo do ciclo passado
Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 21 Set (Reuters) - A Agropalma, líder na fabricação de óleo de palma do Brasil, projeta um aumento de cerca de 20% na produção da safra que se inicia em relação à anterior, após ter sido atingida no ano passado pelos efeitos do El Niño de 2023 e 2024, disse um diretor da companhia à Reuters.
A palma, a colheita na Amazônia brasileira, leva duas safras para reflexão mais fortemente os efeitos das altas temperaturas e redução de chuvas decorrentes das previsões meteorológicas, o que explica o aumento esperado para 2026, ainda que este seja um ano de El Niño.
A situação sinaliza ainda que as previsões meteorológicas de 2026/27, que podem ser um dos mais fortes da história, poderiam impactar a produção nos próximos anos da empresa e de outros operadores do setor, concentrados no Pará -- o Norte do país geralmente enfrenta tempo mais seco e quente em anos de El Niño.
"Enquanto a maior parte do mundo usa o termo 'mudança climática', a gente aqui prefere 'desordem climática'... para nós aqui, o que está acontecendo que é muito visível: é uma modificação em todo o regime climático, não só de chuvas, como de temperatura", disse o diretor Agrícola da Agropalma, André Borba.
Embora seja uma potência agrícola e grande parte do país esteja localizada na faixa tropical do planeta, o Brasil é um importador de óleo de palma, já que grande parte de sua produção de óleo vegetal vem da soja.
As oscilações na oferta brasileira, que normalmente giram em torno de 600 milhões de toneladas de óleo de palma por ano, poderiam impactar as estimativas em cerca de 30% do consumo anual de 1 milhão de toneladas.
A última boa safra da Agropalma, que responde por um quarto da produção nacional, foi a de 2022, disse Borba, citando impactos de El Niños passados.
Ele explicou que o cacho de frutos da palma colhido em 2026 é formado dois anos antes. "Então, se nós temos um estresse hídrico, estresse de temperatura ou umidade, ao invés de a palmeira produzir uma inflorescência feminina que vai virar o cacho, ela produz uma masculina que não vira produção."
“No ano de 2024, nós tivemos bastante problema com falta de chuva e com aumento de temperatura, que de certa maneira estão prejudicando este ano. Mas o ano de 2025 sofreu mais ainda por conta do ano de 2023”, ressaltou.
Apesar de o clima ter desafiado a produção nos últimos anos, o Brasil tem potencial para mais fazer que triplicar o plantio de palma de óleo em um período de dez anos, utilizando áreas desmatadas anteriormente na Amazônia, com impulso da demanda por materiais-primas para a produção de biocombustíveis avançados como o SAF de aviação, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Victor Almeida, em entrevista recente à Reuters.
Borba preferiu não comentar sobre os planos de expansão da Agropalma, adquiridos este ano pelo grupo colombiano Daabon, que passou a ter uma fatia majoritária na empresa. No processo produtivo, a companhia usa 75% dos frutos de produção própria, comprando o restante de terceiros, incluindo familiares agricultores.
NOVA SAFRA
A Agropalma está perto de iniciar a colheita nos meses que registram maiores produtividades.
Os volumes de colheita de frutos são maiores em outubro, com cerca de 12% da produção no ano, novembro, com 15%, e dezembro, com 10%, disse o diretor Agrícola da Agropalma. Em abril, normalmente são os volumes menores, próximos de 4%.
"É uma planta que depende bastante do clima. Ela não produz em áreas com temperaturas baixas e tampouco produz em áreas com pouca chuva. Então, ela exige mais ou menos 150 milímetros de chuva por mês... essa é a razão de nós estarmos aqui na região Norte, mais próximo da linha do Equador, que é uma das regiões que mais chove no Brasil...", explicou.
Sob a influência do El Niño, no entanto, ele disse acreditar que as temperaturas mais altas terão maior influência na safra do que a escassez de chuvas. "A temperatura média este ano é mais ou menos 29 graus (Celsius), dois graus acima do normal. As máximas, que geralmente chegam a 32 graus, este ano está chegando a 36."
Ele disse ter expectativa de que o El Niño afete a labor até fevereiro do próximo ano, já que o específico deverá adiar as chuvas que normalmente voltam a se intensificar na região em dezembro, estendendo-se até junho.
Para lidar com o problema, Borba destacou que a companhia adota uma puerária, uma leguminosa, como cobertura verde, o que reduz a temperatura do solo de 54 graus para 23.
"Com essa temperatura bem menor, conseguimos manter mais umidade no solo e nosso plantio sofre menos com os efeitos da falta de chuva e da temperatura."
A puerária tem ainda a capacidade de captar o nitrogênio da atmosfera, fixando-o no solo, o que permite redução de custos com adubação. Além disso, a leguminosa atrai insights de previsões, dispensando o uso de pesticidas químicos.
(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)