Café do Brasil apresenta florada precoce e nova safra pode chegar mais cedo
Por Roberto Samora e Marcelo Teixeira
SÃO PAULO (Reuters) - As máquinas de café arábica do Brasil, maior produtor e exportador mundial, relataram um bom desenvolvimento em sua primeira grande florada para a safra de 2027, segundo especialistas, que compartilham o evento precoce e um consenso de que uma nova safra poderá chegar mais cedo.
A florada - fase do ciclo das plantas que definem a carga de frutos - ocorreu cerca de um antes do habitual, provavelmente devido à alta umidade, algo incomum para este mês do ano no país e uma anomalia associada às características climáticas do El Niño.
O fato de uma safra poder chegar mais cedo -- por volta de maio do próximo ano para o café arábica -- poderia antecipar a oferta no mercado, enquanto as condições climáticas precisariam seguir desenvolvidas para que as flores se transformassem em frutos da próxima safra.
“De modo geral, podemos considerar essa antecipação de colheita, devido à florada ser mais precoce”, disse Lucas Ubiali, engenheiro agrônomo que circula em diversas áreas na região da Alta Mogiana.
Contudo, há também algumas preocupações com a qualidade da safra futura, devido a outras floradas menos intensas em agosto, que poderiam trazer uma maturação desigual para a colheita.
“De qualquer forma, teremos essa problemática da diferença de maturação, diferença de estágios de frutos”, apontou Ubiali.
Adriano Rabelo, coordenador técnico da cooperativa de café Minasul, observou que este ano o setor não teve "aquele período seco, que geralmente uniformiza mais as floradas".
"Tivemos chuvas durante praticamente a colheita toda... Agora estamos tendo uma florada bem representativa, na maioria das regiões...", disse. "Por enquanto essa florada de setembro é um café para estar colhendo em maio, um pouco mais adiantado. Normalmente, a florada principal é outubro", frisou o especialista da Minasul, com sede em Varginha, Sul de Minas Gerais.
Luiz Eduardo Vilela de Rezende, vice-presidente do Conselho de Administração da Cocatrel, com sede em Três Pontas, também no Sul de Minas, comentou ao ser questionado que várias floradas poderiam gerar maior desigualdade na maturação e tornar a colheita mais desafiadora.
"Porém, uma, duas ou até três floradas são situações conhecidas e administráveis pelo produtor. Ainda é cedo para prever o grau de desuniformidade da próxima safra", disse ele, ressaltando que, caso isso ocorra, será necessária atenção redobrada ao momento da colheita, para a separação dos lotes. “São práticas que o cafeicultor já utiliza para preservar a qualidade diante de diferentes estágios de maturação.”
O Cerrado Mineiro, outro importante produto regional de café do Brasil, também está vendendo a abertura de uma nova florada, “que ocorreu de forma expressiva em diversas áreas”, afirmou a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) em nota nesta segunda-feira.
“Diante da antecipação do ciclo, os técnicos alertam que é fundamental ajustar o planejamento agronômico e antecipar os manejos de proteção pré e pós-florada, conforme as condições do clima e de cada trabalho e região”, afirmou a Expocacer.
PREOCUPADA COM DOENÇAS
A maior umidade, embora benéfica para a planta, traz alguns problemas relacionados a doenças, disse Jonas Ferraresso, agrônomo que presta assistência técnica em fazendas nos Estados de São Paulo e Minas Gerais.
Ele relatou uma alta incidência de doenças bacterianas e fúngicas neste ano.
"Períodos secos ajudam a controlar doenças. Se o tempo continuar úmido, elas tendem a permanecer nas lavouras até o próximo ciclo", disse ele.
Especialistas observam que o Brasil produziu uma safra recorde em 2026; portanto, 2027 será um ano de baixa no ciclo bienal de produção do café arábica.
As árvores sofrem estresse após uma grande safra e não são tão produtivas no ano seguinte.
Outro risco até a colheita pode ser a ocorrência de temperaturas extremas associadas ao El Niño durante o verão brasileiro.
(Reportagem de Roberto Samora, em São Paulo, e Marcelo Teixeira, em Nova York)