StoneX reduz estimativa para cana no Centro-Sul em 2026/27 e projeta safra recorde em 2027/28

 


Por Roberto Samora e Isabel Teles

SÃO PAULO, 23 Set (Reuters) - O centro-sul do Brasil, região que responde por mais de 90% da cana-de-açúcar processada no país, deverá ter uma moagem menor do que a esperada em 2026/27 devido a chuvas que impactam as operações, mas que por outro lado vão aumentar os volumes disponíveis e a produtividade no próximo ciclo (2027/28), que veria uma safra recorde, estimou nesta quarta-feira a consultoria e corretora StoneX.

Uma visão de preço de açúcar mais vantajoso do que o valor equivalente do etanol terá impacto no "mix" de produção das usinas em 2027/28 (abril/março), levando o setor a destinar mais matéria-prima para a fabricação do adoçante no período, destacou a StoneX, em sua primeira estimativa para o novo ciclo.

Enquanto isso, a expansão da indústria de etanol de milho garante uma produção recorde para o biocombustível, segundo a consultoria. Todo o cenário ainda deve garantir maior oferta de açúcar para o Brasil, maior produtor e exportador global da commodity.

De acordo com a StoneX, o tempo chuvoso no inverno do centro-sul, associado ao fenômeno climático El Niño, prejudica o montante total a ser colhido de cana em 2026/27, cujo volume foi revisado de 640,1 milhões para 635,3 milhões de toneladas --ainda um crescimento de 3,9% sobre 2025/26.

Mas possibilita um "início firme" da temporada 2027/28, ajudando a elevar as toneladas de cana por hectare (TCH) e o próprio volume de cana. Assim, a companhia projeta uma moagem total de 662,1 milhões de toneladas para o novo ciclo.

"A grosso modo, o ciclo 27/28 será marcado pelo alto volume de chuvas e seus benefícios ao rendimento agrícola, e pela perspectiva de crescimento do mix açucareiro e, consequentemente, da oferta de açúcar, que pode subir 2,4 milhões de toneladas em 27/28 e se aproximar do recorde de 23/24", disse a StoneX.

Em relatório escrito por Marcelo Di Bonifacio Filho e Letícia Corrêa, a consultoria disse que, com os dias perdidos de colheita até o momento em 2026/27, e considerando uma entressafra chuvosa, a área colhida deverá cair neste ano 3,1%, para 7,96 milhões de hectares.

A safra de cana só não cai ante o ano anterior pelo ganho de produtividade, estimada em 79,8 toneladas por hectare em 2026/27, versus 74,4 em 2025/26.

Já a estimativa de produção de açúcar 2027/28 ficou em 42,4 milhões de toneladas, aumento de 11,6% ante 2026/27, que teve um cenário de preços mais favorável à fabricação de etanol em parte do período, segundo a consultoria.

"Mesmo considerando estoques finais (de açúcar) em 27/28 subindo 8%, com um consumo interno de 8,43 milhões de toneladas, as exportações têm potencial para atingir 33,8 milhões de toneladas via centro-sul no calendário abril-março, aumentando de forma robusta a oferta para o 'trade flow' global no segundo semestre de 2027", disseram os analistas.

O contexto atual dos preços de açúcar e etanol justifica aumento do "mix" açucareiro para 49,3% em 2027/28, alta de 3,1 pontos percentuais ante 2026/27.

A produção de açúcar em 2027/28 cresce também com o maior volume de matéria-prima disponível, com a produtividade agrícola superando 80 toneladas por hectare.

"A decisão de 'mix' das usinas em 27/28 será impactada pela dinâmica atual de preços do açúcar", disseram os analistas.

Eles lembraram que já em julho, o açúcar passou a ficar mais vantajoso que o etanol no Estado de São Paulo, principalmente por conta das quedas observadas nos preços do biocombustível após a entrada da safra 26/27. "Posteriormente, já em agosto, o rally de preços do Nova York passou a estimular não somente o mix açucareiro na temporada corrente, mas também para os contratos de 2027."

PRODUÇÃO DE ETANOL AINDA CRESCE, COM O MILHO

Com o setor favorecendo o açúcar, o "mix" de cana para etanol cairá para 50,7% em 2027/28.

Ainda assim, a produção de etanol total (de cana e milho) deverá crescer 7,2% em 2027/28 ante o ciclo anterior para 40,5 bilhões de litros, com a oferta do biocombustível de milho compensando a queda esperada de 1,5% no volume do combustível de cana.

A produção de etanol de milho deverá saltar 29,7% em 2027/28, para 13,6 bilhões de litros.

"A safra 2027/28 será marcada por renovação do recorde da produção de etanol no centro-sul, puxado, claro, pela expansão acelerada do etanol de milho", disse a StoneX, citando que entre outubro de 2026 e março de 2028 serão oito novas unidades entrando em operação e outras cinco com programação de expansão de capacidade.

A capacidade de produção de etanol de milho deve começar abril de 2027 com 38,9 mil m³/dia e finalizar março de 2028 com 51,2 mil m³/dia, acrescentou.

(Por Roberto Samora e Isabel Teles; edição de Letícia Fucuchima)