Rússia recorre à rota ártica da Segunda Guerra Mundial para exportar grãos
MOSCOU, 28 Out (Reuters) - A Rússia, maior exportadora mundial de trigo, recorreu pela primeira vez a uma rota marítima do Ártico, utilizada durante a Segunda Guerra Mundial, para exportar grãos, já que o conflito na Ucrânia paralisou o comércio no Mar Negro e as autoridades alertam para os riscos no Mar Báltico, controlado pela Otan.
A Rússia e a Ucrânia vêm atacando os portos e navios uma da outra desde o início da nova safra de grãos, em julho, paralisando o comércio agrícola do Mar Negro, outrora em franca expansão.
A Rússia, empenhada em manter seus principais clientes de grãos no Oriente Médio e na Ásia, buscou redirecionar as exportações para portos do Mar Báltico, subsidiando o transporte ferroviário a partir das férteis regiões do sul, mas também de olho nas oportunidades no Ártico.
O Porto Comercial de Murmansk e a Demetra Holding, uma das maiores empresas comerciais do país, informaram nesta quarta-feira que o primeiro carregamento de 3.400 toneladas métricas de grãos proveniente de "importantes regiões agrícolas" está sendo embarcado em um navio.
Murmansk, localizada a quase 2.000 km (1.240 milhas) ao norte de Moscou, perto da fronteira com a Noruega, pode ser acessada por águas neutras. Comboios aliados utilizaram o porto durante a Segunda Guerra Mundial para entregar mercadorias à União Soviética.
"Em um momento em que as rotas tradicionais de exportação enfrentam restrições, o Porto Comercial de Murmansk está abrindo rapidamente uma rota alternativa para os mercados externos para os agricultores russos", afirmou o porto.
RISCOS NO MAR BÁLTICO
De acordo com dados de transporte marítimo e uma fonte do mercado, cerca de 28.000 toneladas métricas de trigo devem ser carregadas em Murmansk em um navio com destino ao porto de Casablanca, no Marrocos.
A Rússia redirecionou seu comércio principalmente para os portos do Mar Báltico, que movimentaram 1,2 milhão de toneladas em setembro, representando mais de 60% de todas as exportações marítimas de grãos. As empresas vêm adaptando terminais de fertilizantes e carvão para movimentar grãos.
Algumas autoridades do Kremlin alertaram para os riscos decorrentes de possíveis ações hostis por parte de países europeus membros da Otan na região. Todos os países com acesso ao Mar Báltico, exceto a Rússia, são membros da Otan.
As relações da Rússia com a Europa se deterioraram nos últimos meses, à medida que o Kremlin acusou os países europeus de envolvimento militar direto no conflito na Ucrânia.
Os governos europeus rejeitaram as acusações russas de que estariam diretamente envolvidos, afirmando que seu apoio militar e financeiro à Ucrânia tem como objetivo ajudar Kiev a se defender.
A Turquia, importadora de grãos da Rússia, liderou os esforços para estabelecer um cessar-fogo e retomar os embarques no Mar Negro, mas a Rússia afirmou que não está mais interessada em um novo acordo sobre grãos do Mar Negro.
A Turquia e as Nações Unidas ajudaram a mediar a Iniciativa dos Grãos do Mar Negro, que foi acordada em julho de 2022 para permitir a exportação segura de grãos ucranianos pelo Mar Negro.
A Rússia se retirou do acordo em 2023, alegando que suas próprias exportações de alimentos e fertilizantes enfrentavam obstáculos.
(Reportagem adicional de Natalia Chumakova)