Choque no mercado brasileiro após as eleições turva perspectivas para crédito mais barato
Por Rodrigo Campos e Karin Strohecker
NOVA YORK/LONDRES, 3 Nov (Reuters) - A queda acentuada do mercado brasileiro após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) turvou as perspectivas de crédito mais barato, deixando o Banco Central na posição de ponderar os riscos de inflação contra os custos de financiamento dolorosamente altos.
Os diretores do BC iniciam nesta terça-feira a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), com a decisão de quarta-feira servindo como um primeiro teste para avaliar como a eleição alterou as perspectivas para a taxa básica de juros. O comitê reduziu a Selic em 25 pontos-base em cada uma de suas últimas cinco reuniões.
Nos próximos quatro anos do governo Lula, convencer os investidores de que ele é capaz de manter as finanças públicas sob controle e, ao mesmo tempo, proteger os gastos sociais será fundamental para reduzir os custos de financiamento. Um fracasso nesse sentido poderia manter o crédito caro por mais tempo, complicando os esforços para apoiar o crescimento.
Uma pesquisa da Reuters revelou que 33 dos 48 economistas esperavam que o BC mantivesse a taxa básica em 13,75% ao ano na quarta-feira. As previsões medianas indicavam que as taxas permaneceriam nesse nível até o segundo trimestre de 2027.
Para Carlos Carranza, gestor de fundos de dívida de mercados emergentes da M&G Investments, a mensagem do BC será mais importante do que a decisão de manter ou reduzir as taxas em 25 pontos-base. “Quer reduzam em 25 (pontos-base) ou mantenham as taxas inalteradas, acho que a mensagem será ainda mais importante do que a própria taxa de juros”, afirmou. Reduzir a Selic sem reconhecer os riscos decorrentes da desvalorização do real seria prejudicial, disse Carranza, embora ele não espere que o Copom faça isso. Na semana passada, o real perdeu 8,5% em relação ao dólar americano e o índice de ações de referência Bovespa recuou cerca de 18%, à medida que a vitória de Lula contrariou as apostas na vitória do candidato de direita Flávio Bolsonaro (PL).
Essas apostas haviam impulsionado uma alta após Bolsonaro inesperadamente liderar o primeiro turno, refletindo as esperanças de um aperto nas finanças públicas. Os investidores devem agora avaliar até que ponto Lula está disposto e é capaz de endurecer a política fiscal. Petar Atanasov, co-head de pesquisa e estratégia soberana da Gramercy Funds Management, ainda vê espaço para um ajuste fiscal sob o governo de Lula, mas espera que ele seja mais lento do que os investidores haviam previsto sob o governo de Flávio.
“A velocidade e a escala do ajuste serão muito diferentes”, disse ele. Um ajuste significativo exigiria conter o crescimento dos gastos obrigatórios e angariar apoio no Congresso, acrescentou. Antonina Tarassiouk, diretora de análise econômica internacional da Reams Asset Management, também espera uma pausa, afirmando que a eleição tornou as perspectivas de inflação mais desafiadoras, especialmente se o petróleo permanecer acima de US$100 o barril.
RISCO DE INFLAÇÃO
A inflação no Brasil subiu 4,62% no ano até meados de outubro. O gasto do governo com juros da dívida pública atingiu 9% do PIB no ano até setembro, a maior parcela desde janeiro de 2016. A dívida das famílias atingiu um recorde de 50,1% da renda anual, enquanto os pagamentos consumiram um recorde de 29% da renda, segundo dados do BC divulgados na semana passada.
Um real mais fraco eleva os custos das importações, o que pode se refletir nos preços ao consumidor. A persistência dessa pressão dependerá, em parte, das nomeações econômicas de Lula e da política fiscal adotada por seu governo.
Carranza, da M&G, no entanto, considera a inflação contida e a incerteza fiscal como o maior obstáculo à redução dos custos de financiamento. Ele vê o crescimento como resiliente, em contraste com a perspectiva mais fraca apontada por Tarassiouk para 2027.
“Revisões para baixo em uma previsão de crescimento já fraca para 2027 serão fundamentais para que o BC retome sua postura de flexibilização”, disse Tarassiouk.
Liam Peach, economista sênior de mercados emergentes da Capital Economics, estima que a desvalorização do real após as eleições possa adicionar 0,3 ponto percentual à inflação geral ao longo de seis meses. Ele espera que os cortes nas taxas de juros sejam suspensos, em vez de revertidos.
“A maior preocupação é o aumento acentuado nos rendimentos dos títulos, o que, se se mantiver, ameaça tornar as condições de financiamento mais restritivas, agravar os problemas fiscais do Brasil e aprofundar a desaceleração no crescimento do PIB que esperamos para o próximo ano”, disse Peach.
(Reportagem de Rodrigo Campos em Nova York e Karin Strohecker em Londres; reportagem adicional de Marcela Ayres em Brasília; edição de William Schomberg e Aurora Ellis)